sábado, 19 de março de 2011

Pelo prazer de ir ao cinema sozinho

Dias atrás decidi ir ao cinema sozinha. Era o início da semana, porém ela já se apresentava complicada e difícil de lidar. Minha semana se resume a duas atividades: trabalho e faculdade. Ocorreu a situação de uma professora comunicar que não ia poder dar a aula. O momento foi o mais ideal possível.

Vestida como quem vai visitar os tios no fim de semana, fui em direção ao shopping. Por via das dúvidas da noite começar a esfriar, peguei uma camisa jeans, mais a carteira, celular e chave. Estava decidida a ver uma comédia super águacomaçúcar, sabe? Daquelas que só de olhar o cartaz já se sabe o que, provavelmente, vai acontecer. Por volta das 18h45min comprei o ingresso. A sessão era às 19h. 


Comecei a observar as pessoas ao meu redor. A maioria delas acompanhada seja pelos namorados/noivos/maridos, famílias e pessoas que, a meu ver, pareciam ser apenas conhecidos uns dos outros. Próximo a bilheteria avistei uma banca (pela falta da palavra?) que vendia crepes e fondues de frutas e essas coisas deliciosas. Nada mal a companhia de uma fondue de frutas com chocolate preto derretido por todo o pequeno pote. Pedi uma água sem gás, pois a sede ia se fazer presente também.

Posicionei-me na fila a espera do moço abrir as portas da sala 2. Três casais conversavam sobre o andar do dia, sobre como se amam e como o mundo é lindo quando escutei o dito moço falar: “Para qual filme senhora?”. O momento que revelo o título da minha comédia super águacomaçúcar: Esposa de Mentirinha. E agora o momento que o meu chocolate todo endureceu: “É proibido entrar com qualquer coisa cremosa nas salas”. Achei até que fosse brincadeira. O meu potinho cheio de frutas com chocolate. Logo ele, minha companhia mais que calórica? 

5 minutos para abrir as portas, resolvi sair da fila. A ideia era saborear o fondue junto do filme, e não engolir aquilo tudo em rápidos e nada delicados 5 minutos. Voltei à banca e pedi a atendente para guardar para mim, pois pegaria ao final do filme. Se eu soubesse que a senhora ia para o cinema tinha avisado mesmo para não comprar, disse ela. Sem problemas, pensei. Novamente na fila, olhei fulminantemente para o moço das portas das salas do cinema. Ele sentiu que eu poderia estar bem contente. Mesmo sabendo que as tais regras existem e, devem ser cumpridas, passei pelo moço, não quis o ingresso de volta e escolhi minha poltrona. 

Sentei na fila bem de cima. Distante de um casal que estava na mesma fila e, ainda mais distante, de algumas pessoas espalhadas pela sala. Nos primeiros minutos, ainda com a luz acesa, antes dos trailers, certa irritação surgiu com aqueles tititis, mas rapidamente passou e comecei a sentir-me bem demais com aquela sensação de, quem sabe, solidão. Por um segundo pensei o que as pessoas deviam imaginar a meu respeito. Se eu entrei antes do meu ou minha acompanhante, se a pessoa estava atrasada ou se a ideia era mesmo ir ao cinema sozinha. Quem pensou na terceira opção, sem dúvida, estava certo.

Da forma como eu desejei, a sessão foi tranquila e prazerosa. Pela primeira vez tive a experiência de não ter ninguém ao meu lado fazendo comentários a respeito da trama, dos personagens, da performance dos atores e atrizes, entre outras chatices que, SIM, acontecem quando se vai ao cinema acompanhado. Soltei algumas boas gargalhadas e, admito, em alguns momentos achei aquela relaçãozinha boba que se criou bem divertida. Ao fim do filme, comecei a juntar minhas coisas, arrumei minha postura que, até então estava relaxada até demais, e levantei. Cruzei por todos os casais que se beijavam após fazerem comentários como “ai, que história linda”, “nossa, a Jennifer Aniston é mesmo demais” e “eu sabia que esse filme era ótimo”. 

Fui direto a banca, pedi meu fondue novamente e, como a atendente mesmo já havia dito, ele já não tinha mais a mesma graça e gosto de quando o pedi a primeira vez. Sentei no banco ao lado, os pensamento do início da semana vieram à tona, mas pude me sentir melhor. Até já pensei na minha próxima ida ao cinema sozinha, e agora sei que não se pode entrar com qualquer coisa cremosa que seja. Para evitar certos constrangimentos, prometo que vou escolher outro gênero de filme para ver.

Ah, minha opinião sobre o filme? Uma comédia super águacomaçúcar que eu procurei desde o princípío.

Um comentário:

  1. “O verdadeiro cinéfilo vai ao cinema sempre sozinho. Senta-se invariavelmente nas laterais da sala. Não mastiga chiclete nem come qualquer tipo de guloseima. Não lê jornais nem revistas, pois permanece nas nuvens, concentrando a tela com ar de concentrada estupidez até começar a projeção. Desaperta o cinto, desamarra os cordões dos sapatos e o nó da gravata e trata de apoiar os joelhos ou pôr os pés no espaldar da poltrona dianteira. Cinco minutos depois de começada a a projeção, pode estourar uma bomba no cinema que o verdadeiro cinéfilo não se dará conta.”

    Gabriel García Márquez.

    ResponderExcluir