E foi escutando Chico Buarque que vi o quanto preciso pensar. Não pensar em qual tarefa devo fazer primeiro, pensar se como batata ou massa, pensar se marrom e preto combinam. O pensar é em mim, na vida que levo, ou que gostaria de levar, o que falta e deixa vazio, o que está completo. Na verdade, sei que já penso demais. Mas não consigo não pensar. Além de ter que parar de pensar, tenho que parar de dizer muitos não's.
"Pára de deixar as coisas para depois, de pensar que tudo vai se resolver, de pensar que as coisas têm volta.", escuto o tempo todo. Insisto em acreditar que ainda existe algo que vale a pena ir em frente, que ainda é bonito, que, simplesmente, existe. Não existe. Ai, já estou pensando de novo. Decido tomar uma cerveja. Desisto. É para ficar, não é difícil de entender isso.
Falta força e coragem. O resto já tenho. Certeza, medo, insegurança. Já sinto todos. Desejei apertar um botão para parar de sentir. Começo a roer as unhas, troco a música, penso no filme que a professora comentou na aula de cinema. Qualquer coisa parece melhor do que tentar expressar qualquer coisa que seja. Mas tem que sair, pois se guardar vai corroer.
Sinto arrependimento e vergonha. Peço desculpas para mim mesma. Agora acho que é a hora de começar a pensar em qual tarefa faço primeiro. Lembro de ter encontrado o professor que mais gosto no corredor. "O que tu fazia lá embaixo? Cigarro, só podia. Eu senti o cheiro, pode dizer que é". Abracei-o e passei a sentir saudades. Saudade de quando acreditei que estava tudo bem. E estava. Agora enxergo o tudo bem muito distante. E existe culpa nisso tudo.
Volto a pensar no vazio. Trago recordações de pessoas que, na primeira impressão, me passaram certa simpatia. Elas tornam ainda mais vazio. O vazio me trouxe o rancor, tirou o sono, até mesmo a fome. As pessoas que pensei não sentir nada agora ocupam espaço em mim. O espaço cresce cada dia mais. Olhei no relógio, perdi a noção da hora. A mãe surge na porta e pergunta se não vou comer alguma coisa. A comida do almoço já sumiu do estômago.
Mesmo sem poder continuar, decido esperar um pouco mais. Como agora hei de partir? Me diz pra onde posso ir. Diz com que pernas devo seguir. Na bagunça do coração, o sangue não errou de veia. Ele, inexplicavelmente, nunca conseguiu acertar.
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