domingo, 27 de fevereiro de 2011

Os olhos castanhos claro da tarde

Sempre achei que brincar com bonecas era uma coisa chata. Quando era pequena, pelo menos é o que sempre contam, brincava com telefones, cd's, papeis, canetas. Tudo que enxergava na minha frente era mais interessante que uma boneca. Essa determinação de que a menina tem de brincar com a boneca e, o menino com o carrinho, nunca funcionou comigo. 

Por um tempo, estive com crianças carentes que passavam por problemas familiares, ou até mesmo com a ausência destes, e que sempre esperavam pela minha visita de toda sexta-feira antes do cursinho pré-vestibular da noite. Inúmeras vezes me senti mal com perguntas do tipo: "você quer ser minha mãe?", "por que meus pais me deixam aqui e não voltam mais?". Era algo perturbador. Os amigos que visitavam as crianças junto comigo não sentiam a mesma coisa que eu. Para eles, o contato com as crianças era como se fosse uma forma de livrar a consciência pelas coisas que não faziam direito, ou que deveriam ter feito.


Para as minhas crianças de toda sexta-feira pouco importava se o brinquedo era uma boneca ou um carrinho. O que importava era o brinquedo, pois era uma atividade que fazia com que elas passassem o dia longe do caos de viver dentro de casa com pais brigando, mães sendo violentadas, junto da solidão e, até mesmo, da fome. 

Agora, depois de quatro anos, voltei a ter contato direto com crianças. Vejo-as todos os dias. Carregam suas mochilas com caderno, lápis, borracha, canetinhas hidrocor. Muitas chegam a Escola de mãos dada com suas mães. Outras, geralmente as mais velhas, chegam sozinhas ou ainda acompanhando os irmãos mais novos. 

Todos os dias faço o mesmo trajeto para chegar até o trabalho. Enquanto espero chegar o ônibus que me levará até onde preciso chegar, observo uma menina de, acredito eu, sete anos brincando com uma boneca bem pequena de cabelo rosa e escabelado. Atenta a boneca nem presta atenção nas perguntas que a mãe faz. Entre uma olhada e outra para ver qual ônibus está passando, a menina tenta arrumar o cabelo para trás do rosto da boneca. Tentei ser discreta para continuar olhando a menina, mas acho que não consegui, pois ela viu que estava sendo observada. Fiquei constrangida. Não queria que ela parasse de observar aquela boneca de plástico enrolada por alguns paninhos que logo se rasgariam. Ela olhou para a mãe como se pudesse falar algo com os olhos. Tentei disfarçar e virei o rosto. Quando senti que ela pudesse ter esquecido meu olhar, voltei a cuidá-la. Ela continuou a tentar arrumar o cabelo de sua boneca, porém logo sua mãe disse para guardá-la, pois "logo o ônibus deve chegar e a boneca pode cair no chão antes de entrarmos". Ela se foi antes que eu pudesse ter dito que ela deveria continuar a arrumar o cabelo de sua boneca. 

Continuei a pensar na menina, nas bonecas, nesses tipos de situações em que me pego observando pessoas que talvez nunca mais veja ao longo dos meus dias. No trabalho, realizei uma tarefa de tirar fotos dos perfis das crianças da 1ª a 4ª série do Ensino Fundamental. Das 12 turmas que me foram passadas, consegui fotografar seis. Eram três turmas de 3ª série, duas de 2ª e uma turma de 1ª. Na quarta turma a ser fotografada, no 23º nome, chamei: Pietra. Ela estava na sala, mas não veio até meu encontro como todas as outras crianças. Ao contrário de todas as Maria's e João's que chamei, Pietra continuou sentada. Escutei a professora dizer: 

- Pietra, ela está te chamando. É a tua vez de tirar a foto. 

A menina respondeu rapidamente.

- Quero que ela venha aqui. 

Fui. Por que não haveria de ir? Ela disse para eu me abaixar e, com seus olhos castanho-claros brilhando se aproximou do meu ouvido. Cheguei a sentir um pouco de cócegas, sensação que costumo sentir quando algo se aproxima dos meus ouvidos. Devagar, disse com uma voz suave e que me pareceu sentir um pouco de medo. "Você é muito bonita. Gostei do brinco na sua orelha". Contive as lágrimas para não deixá-las cair encima de seu caderno. Fiz o mesmo. Cheguei ao ouvido dela e, quase como um sussurro, disse: "você também é. Posso tirar uma foto sua?". Sentindo-se um pouco envergonhada, a menina foi passo por passo ao encontro da parede branca e se virou. Após abrir um enorme sorriso, pude fotografar a delicadeza que se encontrava naqueles olhos. 

Fotografei outras crianças, mas não senti a mesma coisa. Digo que não foi pela falta de elogio. A sinceridade dela me deixou com pouco a dizer. Voltei para minha sala e terminei minhas atividades da tarde. Ao escutar o sinal de fim de aula, corri para a porta de saída e esperei para vê-la ir embora. Ela estava a sorrir. Espero poder continuar vendo seu sorriso. Quero que o sorriso a faça viver. Assim como ele me faz.

Um comentário:

  1. que lindo... uma bela crônica do cotidiano... esse mesmo que nem sempre prestamos atenção...

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